26 de maio de 2012

Forte

E porque se quis demais
Já não se podia
atingir
Deixar mais o rio
fluir
Depois de canalizados
Todos os seus córregos
e ódios e afins
Das lágrimas pretas
de uma mentira poluída
Bem que qualquer amor
e delícia se queria
menos doída
Um não que se não tinha
Razão do naufrago
em se entregar
Ao óbvio e único que era
A busca de se ser
antes de tudo
um forte!

Sent-ido

Não, um pouco mais
Pois o que haveria
No não
E no pouco
Que aspira
Um tanto mais?
O que haveria
das palavras
Senão a procura
de sentido
Em sentir
O sim de algo
Que lavra
E que tem ido
À busca de enfim
Recriar a semântica
das palavras
E da própria vida
que passa

20 de maio de 2012

Dura natureza da cultura vigente

De volta para fora da casa
Pelos caminhos inebriantes do escuro
E pela palidez da lua que o necessário ilumina
Pelos temíveis não-respiros-cíclicos de uma "natureza" descriminada

Os pés caminham (virados) através de uma cultura inanimada!

Cerca-se árvores domesticadas
E se escondem para dentro do nada
E lá pra fora da casa artificializada
Há tentativa de recuperar a vida!

Bem onde os insetos caídos na teia
Por ajuda de uma lanterna incandescente
Em que o calor solitário da planta verde
Faz a retomada dos sentidos de quem sente.

Bem lá onde a chuva inaugura a sinfonia
De criaturas ainda existentes
Camufladas em galhos, folhas, rochas
De onde clamam não se desgarrar

E cantam fortes, imponentes
Sob a luz de estrelas que se mostram abertamente

E as estadas pra fora da "casa"
De onde o habitar é o simples existir
Para todas as mortes, harmonia
Em que é vida a verdadeira beleza

Os pés caminham (virados) através de uma cultura inanimada!
Procura a floresta úmida secando lágrimas quentes
Buscando retardar a dureza de uma cultura sem natureza.
Os pés caminham (virados) pisando em folhas pretas.

Logo num dia como este?

O vértice da seca e triste estação comemora
Lágrimas que se tornaram razão
O fluxo das coisas comuns segue
E no entanto a cada dia
Um pouco se perde.

Da gana de eterno retorno
Qualquer praça contém a artificialidade
E assim se dá também nas relações
O peixe jamais acenou àquela trama incrível
Da criatura que já nascia sapo.

O olhar tudo embaralhou
E o que há na frente
Não são nem mais burros dementes
Tomando o lugar da carroça
Tampouco gênios da nova era.

A falta de contento
A conformação pelos vícios
Pelo automatismo
Destruiu qualquer encanto
De um dia ensolarado como este!

7 de maio de 2012

como se vê


Nem tanto se poderia imaginar
em curar tal ferida tamanha
de certa tacanha mania de se roer toda.

Nem como ratos podia ser, ó sordidez
retumbante, dentro dum coração que arde-sofre
sem mais caminhos a percorrer

... em secura, petrificação e gelo

Jorrando [e ainda queimando] 
       sem força de tanto sofrer,
Abandonaste a feiura e pensais em pureza?
veja como se vê
refugiados a tudo o que realmente existe
[ainda que não haja só isso]
À solidão e amargura.

5 de maio de 2012

Ex(ins)pira-vida



Estaria vida caminhante
Conspirando numa contradição sem fim
Que traços frios e macabros trazem em si
A transição outono-inverno
Neste eterno sofrer-negar.

Quantas solidões trazem no peito,
Efêmero sujeito do esclarecimento e sonhos.
Ó grande homem do futuro,
Reza nobre de um constructo em erupção,
Quanta saudade chinfrim de um acalento
De correr entre os lírios do brejo, vibrar as encostas,
Donde inexiste falta de sentido para um inorgânico violento.

Por que arrasta – vida cambaleante –
Por que muda o sentido ideado daquele que sonha
Num sem por que das decisões mais alarmantes
Muito embora, doravante, o que resta da pondera dos sonhos,
                                                                               senão observá-los
Tão logo quisto desta realidade saber o porquê de ser tão concreta,
Penetrando no interior das vísceras – da vida e do amor –
Em busca de compreender
O que se deu com ambos.
Cuja voracidade do acelero e distância
Bomba o imunológico dos corpos
E se não cessam renascem com um pouco menos
           Inspiração!

14 de abril de 2012




Como uma mosca pode se tornar para nós, 
em determinado estado deprimente,
 algo tão assimilativo?

Sentir-se mosca 
pode não parecer algo corriqueiro,
 já que nosso hábito de superioridade 
pode eliminar zumbido imponente. 

Sentir-se mosca
 é a razão pela qual percebemos 
que não temos razão alguma.

12 de abril de 2012

Barulho

O barulho no mundo se acentua
Àquela face nunca me pareceu tão imóvel
A embriaguez abre caminhos possivelmente de arte
Não fossem às pernas e braços
Mais usados que a mente

Clemente o povo acolhe
A qualquer arte improducente
Desencantados estão seus repentes
Aos reclames dos desejos passam
Em um falso renitente

E nem se sabe se nessa gente
Jaz a paz para se seguir em frente
Avante, minha gente
Parece ser tudo a dizer
Na procura do intrigante laço

Nas esperas de um sono
Em meio a barulho ensurdecedor
E sem guerra aparente!
Mais um filho exaspera em qualquer noite
                                             [deprimente.

4 de abril de 2012

A sanha das aranhas


O canto das coisas pode provocar encanto
Mas nada como um versejar sem compromissos
A grande verdade é que se quer dizer
Além do mosquito e daquela coisa toda:

Sobre os verbos transi (a)tivos diretos.

Pois que ainda confesso que fazer sexo por sexo
É algo tão bonito de se ver naquele fragmento!
E hoje vejo a serventia desse poema
Que faz dizer quão bonita e ímpar é a natureza.

Natureza que se come
se rompe
se lambuza toda
nela se consegue tudo, até combater a fome!

E em toda aquela sanha
Nem bem ligando como se faz
Delicioso sexo das aranhas
Não esperam ser condenadas
Por leis artificiais!

A natureza é mesmo demais!
Em que parte da evolução abandonamos a nossa?


Áh se a civilização aprendesse alguma coisa
Ao ver o jantar-mosquito da aranha
Talvez assim, se não insistisse em dar força 
             [aos fracos, e tirar a força dos fortes
Cometeria menos barbárie! 

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vervedapoesia

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SCS, SP, Brazil
Brasileira, nascida em São Bernardo do Campo,socióloga, poeta, amadora do teatro, da performance, do audio-visual, fotografia, da tradição popular e erudita.