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MARINA SEGURA (à E.D e D.C)

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Hoje meu barco-amor aventureiro flutua
avistando em praia populosa uma marina segura

Antes, em mares tortuosos da vida,
Piratas rondavam minha alma-velejadora
Saqueavam paciência-ouro
E levavam confiança-prata

Em mim, por sorte,
restou desacreditâncias nos amores-posse,
sobrou mais amor próprio

e desistências frente aos amores-choro,
abandono aos amores-dependência
e revolta armada contra os amores-saqueadores
das mais puras especiarias da alma.

Já faz algum tempo e estou milhas-distantes disso,
naveguei pra dentro de mim.

Hoje tenho as marolas-amigas como abrigo e,
até nas praias desconhecidas e nas profundezas de mim,
                                                                           [me sinto livre.

Livre do sentimento-prisão que nos apresentaram como amor.

As ilusões perdidas ficaram no fundo do baú
Em alguma parte do oceano-passado, carcomidas.

E a chave do baú foi deliciosamente engolida
Por um peixe voador.

(Danúbia Ivanoff)

NASCER, COLORIR

Como nascer no meio
Da História dos Homens
Depois de andarilhos, sedentos e
tornados insaciáveis seres?

Como repetir, técnica após técnica,
século após século
A humanização inconclusa,

Sem sentir a estranha natureza
Áspera e obtusa

De todos acontecimentos
E descobertas no mundo?

Não há inocência na dor
Ela é de cor púrpura
E nossa tarefa é depurá-la
Com sangue novo de rasgadas manhãs.

Mas como não se ferir
Neste mundo dado
Se sinto dor e longe
De ser inocente estou?

Como esquivar-me,
Se pintando os lábios
De vermelho intenso
Penso estar reproduzindo
Toda demência de chumbo
Desse mundo chulo?

Não há resposta, a cor é muda.

(Danúbia Ivanoff)

RAZÃO DO POEMA

Bem sei que o que move o poema
É mais morte do que vida

Tal qual sentir-se
Em areia movediça em que se quer imergir
Ou em alturas imensas em que se quer precipitar

Poema bom é poema que se joga
Que se queima, que se rasga
Os que rimam em métrica sem dor
São como pessoas ricas a beira da piscina
Feito ratos em risos e regozijos
(totalmente dispensáveis para um mundo em crise)

Poema preciso
É poema que sangra e chora
Que é batalha

Para um poeta
Os pássaros, as funduras dos lagos
Os peixes, o farfalhar das árvores,
 as belezas naturais
Flores azuis rosas ou amarelas
Não passam de disfarses

Poema bom, é poema
Cor de sangue, viceral
É poema com um bocado de revolta
e feiúra.

(Danúbia Ivanoff)

CICLO

De deuses e mortes nada sei
Refugio-me na vida que cessa a cada dia

Respiro fundo os desejos mundanos
Já bem sei seus possíveis danos

Conheço pouco do caminho
Que, por vezes, percorro vendada
E com tampões nos ouvidos

Prefiro não ver a vida comedida
Em tragadas de cigarros e luzes da auto-pista

De soslaio vejo os ritos
Crio os meus a cada dia

Vivo a vida
Para poder morre-la

Eternamente.

(Danúbia Ivanoff)

FINITUDE

Tirando de mim o poema
Quedarei tal como pássaro sem asa

Tirando de mim minha solidão
Quedarei tal como religioso sem deus

Tirando de mim meu riso
Quedarei tal como palhaço sem graça

Tirando de mim a vida
Quedarei como todos os demais
Seres mortais:

Inescapavelmente finita.

(Danúbia Ivanoff)





POEMA DELICADO

Devorame-me o tempo ido
Escuto a ode desafinada pelos quatro cantos
Vibrando num des-ritmo inenarrável

Penso em não pensar
Seria isto possível?

Quem sabe no canto quinto
Ou lá pelos quintos dos invernos quentes
Do centro de meu Brasil

Vive em mim o presente ruidoso
O jogo sem regras que é a vida
Rego sangue em flores murchas
Planto cactos sem espinhos

Assim não me machuco
Mas temo morrer de sede em desertos alheios

Respiro a aragem das partículas
Imensuráveis
Ouço o farfalhar de bocas sujas
Em telas grandes e também minúsculas

Silencio o absoluto
Sou eu o próprio absurdo.

Junto palavras para o poema
Junto memórias para esquece-las
Junto a mim minha solidão necessária

Assim percebo a delicadeza de um rochedo
E posso acabar sem ter medo.

(Danúbia Ivanoff)





POEMA GOTEJANTE

Em cima do telhado
Encontro abrigo
Não só abrigo como alguns companheiros:

O rato cinza e o gato Chico
(este que eu acabei de batizar,
pro rato não dou nome, me recuso)
Como são livres esses bichos...

Eu realmente nunca tinha pensado
Que encontraria abrigo em cima do telhado
To me sentindo tão confortável.

Será que isto vai virar um hábito?
Porque cargas d´água estou aqui, não sei.

Ah, sim, eu vim arrumar a telha:

Tem uma goteira no meu quarto
E outra aqui no meu peito, meio encalhada,
Mas esta eu arrumo outra hora...

Não estou em tempo de sofrências
Para amores do tipo:
'chove mas não molha'.

(Danúbia Ivanoff)




PARÓDIA NECESSÁRIA: no meio da democracia

No meio da democracia tinha um golpe
Tinha um golpe no meio da democracia
tinha um golpe
no meio da democracia tinha um golpe
Nunca esquecerei desse acontecimento
nas retinas fatigadas do povo, manipulados pela rede globo.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
que no meio da democracia
tinha um golpe
tinha um golpe no
meio da democracia
no meio da democracia
tinha um golpe.

(Danúbia Ivanoff)

MORTE

Não mais eu em mim: daqui um tempo,
não se sabe quando,
                 nem onde
                         e como

Seria nossa certa ausência-futura
o que faz mover nossa presença
No aqui e agora?

Não mais eles em si, o que já foram,
os que lá estão e por nós esperam.

Custa se conformar com o caminho
Que nos levará a vida:

Tal qual um bonde
de inviolada solidão e secreta evidência.

Não fale muito alto o nome dela
É inútil e
definitivamente inevitável.

(Danúbia Ivanoff)

DESTRUIÇÃO

O saber-se coisa
finita
A inútil crueldade
da forma.

A ânsia de espírito
deus, deuses, orixás
alás, mitos, mitos
E etecéteras infinitos.

A vida contra a morte:
a violentação
da verdade, recriando-a
em busca de santidade.

Inútil essência:
carbono, nitrogênio,
hidrogênio, oxigênio
E a quintessência.

A passagem iluminada
Do ser-coisa
Para o ser-nada.

(Danúbia Ivanoff)

NUDEZ SOCIAL

O corpo
tal como veio ao mundo,
impuro,
          (o corpo ou o mundo?)

Nu
De pele macia
Nudez nas esquinas

Nudez na praça pública
mendigos perambulam
É nu o rosto pálido
                  faminto.

É nudez de pele, osso
e alma
Dos que vivem árdua
realidade.

(Danúbia Ivanoff)

AOS DEUSES

Não sou perfeita.
Dou graças aos deuses
ou às deusas.
Vai saber o sexo deles...

Sou carnaval
água-viva
E, felizmente, morrerei um dia!

(Danúbia Ivanoff)

FLUXO

Esquivar mãos e dentes
(proteger-se)

Enterrar o ido
(esquecê-lo)

Deixar que o amor durma numa caixinha quente.

Deixar ir
Para ver o que nasce.

(Danúbia Ivanoff)

PRECE

Ave matinal
Venha alegremente
cantar as manhãs

Escuta-nos em nossos
Abismos

Ave Santa
Purifica nossa ânima
de angústia e grito

Canta Canta
Ave-Santa

Não nos deixe sós.

(Danúbia Ivanoff)

DESEJOS

Uma solidão produtiva
E uma flor
bem amarela que gire sozinha

Ficar totalmente nua com os cabelos soltos

Me embriagar com
Vinho.

(Danúbia Ivanoff)

OUTSIDERS

O estranho
bate na porta:
Não há resposta.

O estranho peregrina
em farrapos:
Talvez não haja nunca
resposta:          

Pronuncia palavras
que antes não conhecia
Quer ser acolhido

O estranho tenta
protusão
E na fronteira
sente-se só
e com saudade

(Danúbia Ivanoff)

MATINAL

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Ouvir o
pássaros na manhã
que desponta

Estão eles sempre prontos e sem preguiça.
Como no meu tempo de criança: Sonhava com a brincadeira E acordava junto com a passarada, pronta!
[Já fomos pássaros E não sabíamos].
Hoje, na gaiola, o despertador toca, toca, toca e nem um pio!
(Danúbia Ivanoff)

ESTRELAS

Como brilham no céu
as luzes mortas
infinitamente lindas

Que silêncio sublime
Do que está
findo

Estrelas, estrelas
Como brilham
astros-fluidos.

(Danúbia Ivanoff)

ANJO DA SORTE

Um anjo que me salve
de meu consumido
fogo

Que me afague
em dias de medo
mostrando-me a luz

Um anjo que me ouça
quando estiver calada

Que me leve e me ensine
a voar
Quando de mim
For só alvorada.

(Danúbia Ivanoff)

VESPERTINO

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VESPERTINO A tarde caiu mansa   Com cheiro de algum  Cardume.
A tarde quente   é de um amarelado ardente e azulíssima:
Depois dela só há O sono profundo das estrelas.

(Danúbia Ivanoff)

ALEGRE INFELICIDADE

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PEITO-AGULHA

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AOS FILHOS DA PUDICA

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VELHA FORMA

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POESIA URBANÓIDE

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PARAÍSO-PRECIPÍCIO (à B.H.M)

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AMOR-MELANCOLÍQUIDO

O gesto de escrever redondo
Descobre o musgo nas palavras.

Com a porta fechada
O vento não encontra caminho
(Senão pelas brechas do espaço-tempo)

Se amor fosse açúcar
Teria medo da chuva.

Adendo: há um goteira
No centro de minha cama.

Pensando bem:

Amor é mesmo feito açúcar
Esquenta, vira caramelo
E gruda

Mesmo na chuva.

(Danúbia Ivanoff)

MADRESSILVA

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ARAPONGA

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HACAI DA CHUVA

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